Segunda, 22 de Julho de 2024 12:02
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Artigo Escrita ensaística

Das vicissitudes da leitura

Autoria: Professor José Luiz Foureaux de Souza Júnior

03/12/2022 08h25 Atualizada há 2 anos
Por: Redação
Professor José Luiz Foureaux de Souza Júnior | Articulista da Coluna Impressões, arroubos e constatações...
Professor José Luiz Foureaux de Souza Júnior | Articulista da Coluna Impressões, arroubos e constatações...

        DAS VICISSITUDES DA LEITURA

Muito dificilmente um romancista poderá representar sua ideia da leveza ilustrando-a com exemplos tira­dos da vida contemporânea, sem condená-la a ser o objeto inalcançável de uma busca sem fim. (...) O romance nos mos­tra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insusten­tável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligên­cia escapam à condenação — as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aque­le do viver. (Italo Calvino).

  PROPILEU

 Ainda é viva a lembrança do momento exato em que víamos o mar, depois de quase dois dias inteiros de viagem. Deslumbramento. A estreada sabia levemente, serpenteando canaviais imensos e grandes plantações de abacaxi. Aqui e acolá, aglomerados de casas, algumas taperas, e crianças brincando à beira da estrada. Os verdes canaviais e o cheiro de abacaxi eram indescritíveis. Dois dias de viagem, às vezes, passando por Macaé, às vezes, por Itaperuna. Ambas no estado do Rio. Por um ou outro roteiro, o fusca azul de meu pai mais parecia a cápsula Apolo que foi à lua em 69. Lá, na praia, meus pais, tios e amigos reunidos depois do banho matinal de mar, olhavam, para o céu, a comemorar o primeiro passo do homem na lua. Entre copos de cerveja, batidas de limão, e peixe frito, falavam, riam, bebiam e comemoravam. Três dias antes de eu completar treze anos de idade, o homem pisou na lua por primeira vez. Nisso se acredita até hoje. Há quem coloque em dúvida. Era Marataízes-ES. A viagem era, mesmo, como a da espaçonave que chegou à lua. Um fusca azul e três meninos. A prancha de isopor sobre as pernas. No meio do caminho, servia de mesa para o lanche. Era impossível sair do carro. No porta-malas (na frente e em cima do carro) as malas com as roupas pessoais. No buraco, atrás do banco braseiro, utensílios de cozinha, travesseiros e outras coisas encaixadas, magicamente, no diminuto espaço livre. Ente as pernas de nós três (meus irmãos e eu) mais coisas encaixadas. Se saíssemos toda vez que papai parava para abastecer, tudo desmoronaria. Então só descíamos na parada do “meio” da viagem e quando chegávamos a Marataízes. Itaperuna ou Macaé. Era o caminho conhecido até o litoral sul do Espírito Santo. Àquela altura, final dos anos sessenta, eu não fazia ideia do que ocorria pelo Brasil, de fato. Sempre estranhei certas coisas, mas nunca soube ao certo, direito, com detalhe. A viagem era uma epopeia. Para matar o tempo, eu contava cemitérios. Às vezes brincávamos de adivinha. Em outros momentos cantávamos de tudo. Era mesmo uma epopeia. No entanto, anos depois – isso teve início no verão de 1967 e durou até dezembro de 1979 – a sensação se repetia. Sempre. E ainda se repete, com menos intensidade, devo dizer – deve ser fruto da passagem dos anos. Mas ainda há o encantamento de vislumbrar, num átimo, a faixa verde pintalgada de branco – sobretudo no verão. Visão do paraíso. Tanto entre janeiro e março, quanto em julho, as temporadas de talassoterapia deixaram em mim muitas lembranças. A mais intensa e colorida, a da visão do mar quando da chegada.

 

Este primeiro parágrafo serve de esboço de um pano de fundo. A cena do relato que aqui vai se desenvolver. Talvez não faça sentido para quem não admite o traço subjetivo, biográfico, que resiste, mesmo contra todos os esforços contrários, no âmago da escrita ensaística. Muitos narizes já estão torcidos a esta altura. Não me importo. Este introito se deve à impressão que me ficou da maratona de leitura dos livros de Bernardo Carvalho. Estes livros constituem o meu objeto de atenção, de desejo, nas páginas que aqui vão. A rememoração de uma experiência muito pessoal servirá para delinear o perímetro desta impressão de leitura que me move. O conjunto de 11 livros me levou a esta imagem de deslumbramento que decorre de um período de “dificuldade”. As aspas revelam apenas a minha incapacidade de encontrar termo mais adequado ou mais expressivo para associar a esta impressão, identificando-a. Os livros de Bernardo Carvalho – tecnicamente considerados “romances” (Não vou entrar no mérito desta questão!) – levaram-me a recuperar o deslumbramento de ver o mar, quando da leitura do conjunto de sua obra, até aqui. Esta última ressalva se sustenta, dado que o autor ainda vive. Assumo o risco, de certa forma, criticado por boa parte de acadêmicos portugueses, ao atrever-me a escrever sobre “autor ainda vivo”.

 VÉU DA NOIVA

 Não foi à toa que comecei essas páginas com o registro de memórias afetivas. O intuito era, se é que foi percebido assim, suscitar a ideia de crescendo. Como alguma coisa que vai recebendo camadas, elementos outros, aglutinações alheias e, como bola de neve, só cresce ladeira abaixo. Bem, o movimento, aqui, não é, exatamente, descendente. Ele fica na horizontalidade do alargamento de sua abrangência. Explico-me, a intensificação do sentimento de alegria e deslumbramento com a visão do mar se deu, nas minhas memórias, através da repetição de uma rotina, quase suplício. Esta repetição, foi ao longo dos anos, sendo incorporada ao referido sentimento. Isto só o fez crescer e ficar mais nítido, mais forte. Ele chegou aos dias de hoje ainda intacto. Da mesma forma, há uma ideia que percorre os romances de Bernardo Carvalho e que pode ser percebido da mesma forma. O mesmo ritornello de minhas memórias se dá na leitura dos romances. Neste caso, esta leitura dever respeitar a organização cronológica da publicação do livro. Isto é o que tentei ensaiar nestas páginas. Esta ideia é a de homoerotismo. Começa meio que escondido, espalhado nas entrelinhas das narrativas iniciais. Vai apontando aqui, a cada livro, com mais intensidade. No último, deságua, abre-se. Para usar expressão corriqueira já muito desgastada e, por isso mesmo, um tanto jocosa: sai do armário.

Este texto está incompleto. Ele é apenas o começo de um projeto de ensaio que (ainda) tenho o desejo de escrever. No entanto, serve, a meu ver, para iniciar a publicação da coluna em que se insere. Sempre procure instigar, incomodar, cutucar, provocar. Aqui não há de ser diferente. Numa outra oportunidade, quem sabe, retorno ao texto do projeto e o concluo, quem sabe...

 

As ideias contidas neste artigo não correspondem, necessariamente as ideias do jornal e são de responsabilidade do autor.

 

 

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MAROEL DA SILVA BISPOHá 2 anos Feira de SantanaDe fato, rememorar é isso mesmo; é trazer à tona o que está dentro de nós, ou seja, o subjetivo que almeja desaguar, romper. Parabéns! Lindo ensaio professor José Luiz! E cheio de provocações que inquietam mesmo...
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Com ênfase na área de Literatura, na Coluna Impressões, arroubos e constatações..., o professor José Luiz Foureaux de Souza Júnior se propõe a brindar leitores e leitoras com ensaios e outros textos, fragmentos de suas memórias pessoais, sempre no intuito de instigar, incomodar, cutucar, provocar.
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